BAMBARA - Stray (2020)

 

O quarto disco dos norte-americanos Bambara preenche os sentidos como uma escuridão irresistível que se espraia por montes e vales, enquanto Reid Bateh reclama o mundo como seu com uma voz que mistura Nick Cave e Leonard Cohen e os companheiros de banda dizimam as últimas centelhas de luz com uma barreira sonora impenetrável. Com raízes no noise-rock, os Bambara evoluíram para uma sonoridade pós-punk que traz à memória os saudosos Madrugada com um som (ainda) mais cheio, cruzando narrativas góticas com o imaginário lynchiano e elementos western. 
Comparando com o anterior e igualmente excelente Shadow on Everything (2018), as canções de Stray soam mais fluidas, variadas e assombradas, abrindo espaço a saxofones, vozes femininas e linhas de baixo hipnóticas e, sobretudo, deixando a voz de Bateh respirar, confirmando-o como um dos vocalistas mais cativantes da atualidade. 
Num disco que se ouve de um fôlego e de preferência bem alto, a abertura com "Miracle" é suficiente para nos deixar de boca aberta (tal como a personagem que tatuou os lábios), antes de "Heat Lightning" provocar os primeiros espasmos involuntários no pescoço; seguem-se "Sing Me to the Street", com o baixo a entranhar-se nos ossos, e a poderosa "Serafina", sobre pirómanos que sorriem com fósforos nos dentes; "Death Croons" e "Stay Cruel" marcam uma sequência memorável, com o contraste delicioso entre as vozes femininas e o timbre profundo de Reid Bateh; as abrasivas "Ben&Lily" e "Sweat", embrulhadas em guitarras urgentes, lembram Nick Cave vintage; "Made for Me" traz sintetizadores para o tema mais "gótico" do disco; e "Machete" encerra a viagem com uma letra realmente brutal, como que oferecendo de presente um capítulo de um bom livro. Enquanto não sai o próximo, vou ler este outra vez (à luz de velas e com um copo de tinto).

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